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Parágrafo: Conceitos e Prática

                                               O PARÁGRAFO – CONCEITOS

      Parágrafo é a unidade de composição do texto que apresenta uma idéia básica a qual se agregam idéias secundarias relacionadas pelo sentido.
     Conceituando-se o parágrafo como unidade de idéias, verifica-se que o parágrafo de descrição deve corresponder a cada aspecto do objeto descrito; o parágrafo de narração reflete cada fato da seqüência narrada; o de dissertação corresponde a cada argumento ou raciocínio.
      De maneira geral, nos textos bem escritos, a cada parágrafo relaciona–se uma idéia importante.
      É variável a extensão do parágrafo: pode conter apenas uma frase ou alongar-se por uma página inteira. A tendência moderna é a intercalação de parágrafos curtos aos de média extensão. Não se usam, atualmente, parágrafos demasiadamente longos.
Tome-se como exemplo o seguinte texto:

“AÇÃO LINGUÍSTICA DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE MASSA”

Cada meio de comunicação influi de maneira diversa na educação em geral e na educação lingüística em particular, conforme a tec­nologia empregada. Todos eles podem ser usados como motivação no processo escolar, de acordo com o código que utilizam, de forma diversificada, condizente com o nível de ensino a que se destinam.
       Com o auxílio e a orientação do professor, esses meios têm condições de desenvolver a expressão, o senso crítico e a criativida­de do aluno.
       Jornais e revistas podem ser usados em sala de aula, em pes­quisas sobre novas formas de comunicar, novos termos, empréstimos, tipos de discursos.
       O rádio influi sobre os usos orais da língua, tendo seu campo alargado com o advento do transistor. Comunicando apenas pela linguagem falada, enfatiza a empatia, utilizando por vezes registros e níveis populares, regionais e informais, O estudo da linguagem radiofônica em sala de aula é um recurso para a verificação dessa gama de variantes e registros e de sua adequação à situação, pois, na maioria dos casos, as emissoras são locais, tendo seu raio de atuação restrito.
     A música popular brasileira é uma excelente base de estudo de nossas raízes culturais. Na disciplina Língua Portuguesa, as le­tras prestam-se à análise de fatos referentes a rima, métrica, palavras polissêmicas, construções frasais, níveis de interpretação textuais, in­tertextuais e supratextuais.
      A televisão é o meio que mais influi no atual estádio da socie­dade brasileira, graças à excelência de nosso sistema de telecomunicações facilidade de recepção da imagem e sua decodificação num país cações, à penetração das cadeias nacionais de televisão e, também com tão grande número de iletrados e tão pouco interesse pela cul­tura escrita. A TV difunde primordialmente a pronúncia padrão e    o vocabulário básico do Centro-Sul, salvo nas reportagens locais e~ nas caracterizações de personagens regionais, onde são percebidas as variedades Norte-Sul, campo-cidade. A massa poderosa de infor­mações veiculadas por este meio eletrônico deve ser integrada no processo escolar para que se aproveitem suas múltiplas possibilida­des de motivação e sensibilização.” (Diretrizes para o aperfeiçoamento do ensino/aprendizagem da língua portuguesa: Relatório Conclu­sivo. MEC, 1986. p. 29.)   

QUALIDADES DO PARÁGRAFO

    O   tema de um texto deve ser o mesmo; portanto, quando se inicia um novo parágrafo, não se muda de assunto. A abordagem, os argumentos é que vão-se modificando em função de explicar, esclarecer, transmitir idéias que tornem o texto mais claro.

    Entre as qualidades do parágrafo destacam-se:

  • unidade;
  • coerência;
  • concisão;
  • clareza.

      Unidade. Apenas uma idéia principal pode emergir do parágrafo. As idéias secundárias devem girar cm torno da principal, sem acréscimos que possam quebrar a unidade exigida.

      Coerência. A organização do parágrafo tar-se-á de tal forma que fique evidente, em destaque, o que é principal. Torna-se indispensável haver subordinação e relacionamento de sentido entre as idéias secundárias e a principal.

    Concisão. Não é aconselhável estender demasiadamente as exemplifi­cações e os desdobramentos da idéia principal. A concisão, contudo, não deve ser alcançada em detrimento da clareza.

    Clareza. A clareza, em grande parte, depende da escolha das palavras. A palavra adequada ao contexto concorre para que o parágrafo se torne dc fácil compreensão e de leitura agradável.

    A transição de um parágrafo para outro não há de ser brusca, abrupta: impõe-se um encadeametito lógico e natural entre os parágrafos.                            

    Às vezes, torna-se indispensável acrescentar ao texto uni parágrafo de transição para que a sucessão de idéias se faça dc maneira harmoniosa.

Aconselha-se, porém, que o texto não apresente parágrafos repetitivos, isto é, dois ou três parágrafos redigidos dc forma diversa, mas contendo a mesma idéia. A repetição torna o texto redundante e cansativo.

Atente-se, no texto que se segue, para o encadeamento dos parágrafos.

“TEMPO INCERTO

    Os homens têm complicado tanto o mecanismo da vida que já ninguém tem certeza de nada: para se fazer alguma coisa é preciso aliar a um impulso de aventura grandes sombras dc dúvida. Não se acredita mais nem na existência de gente honesta; e os bons têm medo de exercitarem sua bondade, para não serem tratados de hi­pócritas ou de ingênuos.
     Chegamos a um ponto cm que a virtude é ridícula e os mais vis sentimentos se mascaram de grandiosidade, simpatia, benevolên­cia. A observação do presente leva-nos até a descrer dos exemplos do passado: os varões ilustres de outras eras terão sido realmente ilustres? Ou a História nos está contando as coisas ao contrário pa­gando com dinheiros dos testamentos a opinião dos escribas?

     Se prestarmos atenção ao que nos dizem sobre as coisas que nós mesmos presenciamos — ou temos que aceitar a mentira como a arte mais desenvolvida do nosso tempo, ou desconfiaremos do nos­so próprio testemunho, e acabamos no hospício!” (Meireles, 1968:52)

  ESTRUTURA DO PARÁGRAFO

    O parágrafo pode ser considerado um microtexto e, como tal, não prescinde da delimitação do assunto e fixação do objetivo. Método simples e prático de apresentar esses dois requisitos indispensáveis é responder às perguntas:

1 0 quê? (delimitação)

  • Para quê? (fixação do objetivo)

Assim como sucede com o texto, o parágrafo deve conter introdução, desenvolvimento e conclusão.

Exemplo:

“A profissionalização de uma equipe co­meça com a procura e ‘aquisição’ das pessoas que tenham experiência e as aptidões adequa-1 das para o desempenho da tarefa, especialmente  te quando esta é imediata. As pessoas já vi­rão integrar a equipe sem precisar de treinamento profissionalizante, podendo entrar em ação logo após seu ingresso. Alternativamen­te. ou quando se dispõe de tempo, pode-se re­crutar pessoas inexperientes, mas que demons­trem o potencial para desenvolver as aptidões e o interesse em fazer parte da equipe ou de90

dicar-se à sua missão. Sempre que possível, uma equipe deve procurar combinar pessoas experientes e aprendizes em sua composição, dc modo que os segundos aprendam com os f primeiros. A falta de tini ‘banco de reservas’,muiitas vezes, pode ser urn obstáculo à própria evolução da equipe.” (Maximiano, 1986:50)

        TÓPICO FRASAL

      A introdução, na grande maioria dos casos, corresponde ao tópico frasal, que anuncia a idéia-núcleo do parágrafo. 
     Além de conter a idéia central, importa que o tópico frasal seja atraente, para estimular a continuação da leitura.
     Na descrição e na dissertação é que o tópico frasal aptirece mais nitidamente. Na narração, a idéia central vem, quase      sempre, diluída no desenvolvimento do parágrafo.

   Em alguns casos, mais raros, a idéia central surge no final do parágrafo ou mesmo no meio. Exemplo de tópico frasal:

“MUNDO HARMONIOSO”

      O fogo selvagem que tornou conta do Parque Nacional das Ernas deixou uni saldo trágico para a ecologia. A vegetação, composta de 774 espécies arbustivas e arbóreas, entre elas as palmeiras-buriti. as guabirohas e as mangabeiras. tornou-se um mar de cinzas. Enquanto animais, como os porcos-queixadas, caminhavam em círculos, deso­rientados diante do novo cenário, tarnanduás corn filhotes, torrados no chão, eram uma amostra da dolorosa tragédia. As emas, numero­sas no parque, foram as mais atingidas pelo fogo, já que ele coinci­diu com seu período de reprodução. Em pânico, abandonaram seus ninhos e, junto corn manadas de veados, pularam as cercas que cir­cundam o parque à procura de alimento e segurança nas fazendas vizinhas, onde migrantes do sul do país plantam soja.” (Revista Veja. ano 20, n° 32, 10-8-88. p. 95.)

DESENVOLVIMENTO
     
     O desenvolvimento do parágrafo nada mais é que o desdobramento do tópico frasal.

  1. l) o desenvolvimento constam as idéias secundárias, que explicam ou esclarecem a idéia central, os exemplos, as referências históricas, tudo que possa contribuir para corroborar o que foi dito no tópico frasal.

     O     desenvolvimento do parágrafo pode realizar-se mediante várias formas:

  • explicitação da declaração inicial;
  • ordenação por causa-conseqüência;
  • ordenação por contraste;
  • ordenação por enumeração;
  • resposta à interrogação etc.

CONCLUSÃO

     Nem todos os parágrafos apresentam uma conclusão explícita, prin­cipalmente os que contêm encadeamento inerente ao desenvolvimento do tema. 
    A conclusão se manifesta mais freqüentemente nos parágrafos de textos dissertativos — expõem idéias, discutem problemas, defendem opi­niões, analisam fatos.

     Nos textos descritivos e narrativos, a conclusão, via de regra, se faz presente no final do texto, em decorrência das suas características estru­turais.

Exemplo de conclusão em um parágrafo:

 “Ninguém duvida que, ao criar a linguagem e, mais tarde, a pa­lavra escrita, o homem empreendeu dois dos maiores avanços na 1-lis-tória da civilização. Poucas vezes se nota que, no mesmo tempo em que inventava a comunicação, ele inventava a reboque os terríveis mal-entendidos e erros dc interpretação. Até hoje o homem aprendeu a falar em 2.796 idiomas e 8.000 dialetos, multiplicando na mesna proporção a dificuldade de se transmitir mensagens de uma cultura para a outra. O escritor e Iingüista americano Charles Berlitz cole­cionou durante anos os exemplos mais hilariantes desse desencontro entre os idiomas, e outras tantas saborosas curiosidades sobre a lin­guagem, e os reuniu em As línguas do mundo. O resultado é um livro delicioso, repleto de surpresas e que pode ser aberto em qua!­quer página, a exemplo dos antigos almanaques distribuídos nas far­mácias.” (Revista Veja, ano 20, n.° 32, 10-8-88, p. 135.)

FORMAS DE DESENVOLVIMENTO DO PARÁGRAFO

A elaboração de parágrafos não pode ficar jungida a normas muito restritivas; a natureza do assunto, o tipo de composição, o estilo do escritor é que devem determinar a construção do parágrafo. As formas de desen­volvimento do parágrafo que se citam têm caráter didático, visam oferecer ao aluno subsídios para o aprendizado. As principais formas de desenvol­vimento do parágrafo são:

  1. a) Explicitação da declaração inicial — consiste no desdobramento da afirmação contida no tópico frasal. São idéias secundárias que corrobo­ram a proposição inicial. Exemplo:

“A finalidade da arte não é a imitação da natureza. Ela tem o seu fim em si mesma. O espírito humano é tão criador como é a na­tureza e só se atinge a obra de arte, quando o espírito se liberta da natureza e age independente. As formas artísticas que se limitam a reproduzir a natureza são de qualidade inferior àquelas que o artista formula como criação individual e livre. Nem todos os povos primi tivos se subordinaram à natureza, muitos foram verdadeiramente ar­tistas, criando obras de arte sem imitação, como jogos de fantasia espiritual. Quanto mais urna civilização é artista, mais ela se afasta da natureza. A arte não é um canto da natureza visto através de um temperamento, como a paisagem não é um estado da alma. To­das estas fórmulas subjetivas fizeram o seu tempo. São incompreen. sfvcis hoje. A essência da arte está nas emoções provocadas pelos sentimentos vagos, que nos vêm dos contactos sensíveis com o Uni­verso e que se exprimem nas cores, nas linhas, nos sons. nas pala­vi’as.” (Aranha In: Barreto & Laet. 1957:17Q)

“OS TRÊS RISOS
  1. Ordenação por causa-conseqüência é ponto pacífico a correla­ção das idéias causa-conseqüência: uma supõe a outra. No parágrafo assim ordenado busca-se o encadeamento lógico do raciocínio. A manifestação da causa-conseqüência pode ocorrer de foi’ma explícita, quando aparecem termos corro pois. porque etc. (para causa) e logo, pois, portanto etc. (para conseqüência). ou de forma implícita. quando tais termos não se fazem presentes. Exemplo:

     Estando em artigo de morte uni padre antigo do famoso deserto de Cites, us outros monges, rodeando-lhe a cama ou esteira em que jazia, choravam amargamente. Neste ponto abriu os olhos e sorriu-se; dali a pouco tempo tornou a rir; e, depois de outi’o breve intervalo, terceira vez deu a mesma mostra de alegria.  

        Causou isto nos circuns­tantes não pequeno reparo, por ser austera a pessoa, e formidável a hora: perguntaram a causa e respondeu-lhes: ‘A primeira vez mc ri, porque vós outros temeis a morte; a segunda, porque, temendo-a. não estais aparelhados; a terceira. porque já lá vai o trabalho, e vou para o descanso’.
      Tornou então a cerrar os olhos, e desatou-se seu espírito.” (Bet­nardes, Manuel. Nova floresta. Tomo I. Apud Barreto & Lad.  (1957:293)

  1. c) Ordenação por contraste — o objetivo é apontar diferenças, estabelecer oposições e chegar ao esclarecimento. Exemplo:

“A questão da origem das palavras é geralmente designada pelo termo etimologia. A pesquisa etimológica sempre foi concebida de modo bem diverso segundo os domínios lingüísticos. A tal respeito é típica a oposição dos indo-europeanistas e dos romanistas. Os ro­manistas consideram corno termo de seu estudo o latim. Basta-lhes, portanto, fazer chegarem até essa língua (e eventualmente ao celta e ao germânico) os vocábulos das línguas romanas (tal como o fr. champ ao lat. campus) para considerar resolvido o problema, exceto no que se refere às palavras que se originam de línguas pré-latinas. Em suma, os romanistas consideram um lapso de tempo de cerca de dois mil anos. Os indo-europeanistas, ao contrário, como também os germanistas, não tendo à sua disposição um estágio linguístico tão bem conhecido, procuram, pela comparação com outras línguas, estabelecer a existência de pretensas raízes e descobrir o conceito ao qual primitivamente se referia a palavra.” (Wartburg, 1975: 109)

  1. d) Ordenação por enumeração — caracteriza-se pela ordenação mi­nuciosa de idéias ou argumentos e visa, assim, à generalização. Exemplo:

     “A autoconfiança, necessária ao bom comunicador, depende de três condições. A primeira, necessária ao autodomínio físico do nos­so corpo, depende da disposição física, da saúde. Uma grande re­sistência física fortalece a emocional. A segunda é intelectual.
      O preparo da nossa inteligência deve ser feito com o estudo da gramá­tica, com exercícios adequados, como o estudo da Lógica, da Mate­mática, a prática do xadrez, de palavras cruzadas, de debates de qualquer assunto que desenvolvam nossa perspicácia. Ainda nesse item, o aspecto da organização cultural é imprescindível. Adquirir  informações para aplicá-las na formação de nossas idéias, a fim de que possamos reforçar as idéias dos ouvintes, enfraquecê-las ou des-truí-las. Várias outras condições ainda influem na condição intelec­tual, mas destacamos uma: a boa memória. A terceira é social. O relacionamento freqüente nas associações, clubes, igrejas, empresas, reuniões familiares nos proporciona a auto-sugestão de que aceita­mos as pessoas e somos aceitos por elas. Portanto, aumenta a nossa coragem, que nas comunicações verbais não é a ausência do medo, mas sim a vitória sobre o medo.” (Melantonio, s.d.: 14)

  1. e) Resposta à interrogação — busca desenvolver o parágrafo em forma de resposta à pergunta inicial. Exemplo:

“Para que, pois, este aluno aprende língua portuguesa em sua variedade culta? Sabemos, e compartilhamos com todos os educado­res, que o pleno acesso aos bens culturais não depende do que possa fazer a escola, mas julgamos que nesta é possível lutar contra as di­ferenças. No que concerne ao ensino da língua portuguesa. então, o objetivo último é possibilitar aos alunos, a todos eles, o domínio da língua de cultura para que este primeiro obstáculo possa ser trans­posto.” (Diretrizes para o aperfeiçoamento do ensino/aprendizagem da língua portuguesa: Relatório Conclusivo. MEC, 1986. p. 13.)

                                                         ORGANIZAÇÃO DO TEXTO: COESÃO ENTRE OS PARÁGRAFOS

O  parágrafo é a unidade do texto, mas não bastam parágrafos bem estruturados para assegurar-lhe a tessitura lógica. Importa que haja coe­são entre os parágrafos que espelhe a linha de raciocínio explicitada no desenvolvimento do assunto.

O encadeamento dos idéias mestras contidas em cada parágrafo é que vai construir a organicidade do -texto, o equilíbrio entre suas partes. con­dições indispensáveis para que o assunto abordado se torne claro e compreensível.

No texto abaixo revela-se tinia seqüência lógica entre os parágrafos. a saber: o primeiro oferece unia descrição sucinta da casa materna, no seu aspecto exterior.

No segundo, iniciado por “Ë sempre quieta a casa materna. . .“ pros­segue a descrição, porém em outro nível. A descrição dos aspectos físicos externos do primeiro parágrafo cede lugar a outros aspectos. porém. do interior.

O terceiro parágrafo “A casa materna é o espelho de outras. continua a descrição de aspectos interiores, porém deixando transparecer um tom de generalização.

No parágrafo seguinte, juntamente com a continuidade da descrição, suscitam-se lembranças da infância.

No último parágrafo vem juntar-se à imagem da casa materna a evocação da figura paterna. como que completando o ciclo familiar.

“A CASA MATERNA

Há, desde a entrada, um sentimento de tempo tia casa materna. As grades do portão têm uma velha ferrugem e o trinco se oculta num lugar que só a mão filial conhece. O jardim pequeno parece mais verde e úmido que os demais, com suas palmas, tinhorões e samambaias que a mão filial, fiel a um gesto de infância, desfolha ao longo da haste.

       É sempre quieta a casa materna, mesmo aos domingos. quando as mãos filiais se pousam sobre a mesa farta do almoço, repetindo uma antiga imagem. Há uni tradicional silêncio em suas salas e um dorido repouso em suas poltronas. O assoalho encerado, sobre o qual ainda escorrega o fantasma da cachorrinha preta. guarda as mesmas manchas e o mesmo taco solto de outras primaveras. As coisas vivem como em prece, nos mesmos lugares onde as situaram as mãos maternas quando eram moças e lisas. Rostos irmãos se olham dos porta-retratos, a se amarem e compreenderem mudamente. O piano fechado, com uma longa lira de flanela sobre as teclas, repete ainda passadas valsas, de quando as mãos maternas careciam sonhar.

     A casa materna é o espelho de outras, em pequenas coisas que o olhar filial admirava ao tempo em que tudo era belo: o licoreiro magro, a bandeja triste, o absurdo bibelô. E tem um corredor à escuta, de cujo teto à noite pende uma luz morta, com negras aber­turas para quartos cheios de sombra. Na estante junto à escada há um Tesouro da Juventude com o dorso puído de tato e de tempo. Foi ali que o olhar filial primeiro viu a forma gráfica de algo que passaria a ser para ele a forma suprema da beleza: o verso.

     Na escada há o degrau que estala e anuncia aos ouvidos ma­ternos a presença dos passos filiais. Pois a casa materna se divide em dois mundos: o térreo, onde se processa a vida presente, e o dc cima, onde vive a memória. Embaixo há sempre coisas fabulosas na geladeira e no armário da copa: roquefort amassado. ovos frescos, mangas-espadas, untuosas compotas. bolos de chocolate, biscoitos de araruta — pois não há lugar mais propício do que a casa materna para uma boa ceia noturna. E porque é uma casa velha, há sempre uma barata que aparece e é morta com uma repugnância que vem de longe. Em cima ficam os guardados antigos, os livros que lembram a infância, o pequeno oratório em frente ao qual ninguém, a não ser a figura materna sabe por que, queima às vezes unia vela votiva. E a cama onde a figura paterna repousava de sua agitação diurna. Hoje, vazia. 
    A imagem paterna persiste no interior da casa materna. Seu violão dorme encostado junto à vitrola. Seu corpo como que se marca ainda na velha poltrona da sala e como que se pode ouvir ainda o brando ronco de sua sesta dominical. Ausente para sempre da casa materna, a figura paterna parece mergulhá-la docemente na eternidade, enquanto as mãos maternas se fazem mais lentas e as mãos filiais mais unidas cm torno à grande mesa, onde já agora vibram também vozes infantis.” (Moraes, 1968:90-I)

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